sexta-feira, abril 25, 2008

Outrora

Tempos houve em que as empresas e seus patrões, sem deixarem de perseguir o objectivo do lucro, faziam por cativar os empregados oferecendo creche para os filhos, refeitório, grupo desportivo com despesas pagas, festas de Natal com prendas para as crianças e outras benesses.
Na medida das suas possibilidades, o patrão procurava ter um amigo em cada colaborador, recompensando-o pela lealdade e entrega.

Não eram tempos fáceis, não senhor, mas havia respeito por aqueles que contribuíam para a riqueza e solidez das empresas. Quase sem querer, “vestia-se a camisola”, e a cumplicidade quase familiar levava a que não se mudasse de emprego “apenas” por mais alguns “contos de réis”.
Muitas vezes, em cima da hora de saída, devido a uma situação inesperada, era necessário “fazer horas”, sem pré-aviso, sem nada e quase nunca havia coragem para dizer “não”.
Não raras vezes eram os próprios patrões ou os filhos destes que saltavam para a linha da frente, a dar o exemplo.
Essas horas extra, eram muitas vezes pagas na hora, em dinheiro vivo, em contas feitas de cabeça, a contento das partes, depois de umas sandochas e umas cervejolas (ou um catraio de cinco litros, para os mais tradicionalistas), porque quem não é para comer não é para trabalhar.
Era o tempo em que o patrão sabia o nome próprio de mais de uma centena de empregados. Era o tempo em que cada um (patrão e empregado) sabia claramente qual a sua tarefa ou missão. Era o tempo do trabalho em equipa, do remar para o mesmo lado, do orgulho de ter dez, quinze ou vinte anos de casa e em alguns casos ostentá-lo na lapela do casaco na forma de um pin de prata ou ouro, oferecido pela empresa.

Era o tempo em que alguns eram ricos e os outros remediados.1

1 Como dizia alguém que conheço: não necessito ser rico; só quero, se precisar comprar alguma coisa, levar a mão ao bolso e ter lá dinheiro para poder pagá-la.